“ENTREVISTA Ricardo Rio”

tub_suplemento_19_09_16-7 tub_suplemento_19_09_16-8 tub_suplemento_19_09_16-9

“Presidente da Câmara Municipal de Braga assume uma posição activa e dinâmica na relação com os Transportes Urbanos de Braga, uma vez que “têm um papel crucial na qualidade de vida” dos cidadãos. Ricardo Rio reconhece que as questões da mobilidade e da reorganização da cidade no sentido de a tornar acessível para todos vai ter uma forte influência em outras componentes, como a económica e turística.””

“Os TUB têm vindo a conquistar um papel de grande credibilidade”

“Que análise faz daquilo que foi feito e planificado durante o seu mandato autárquico?
Julgo que o principal objectivo para esta mandato autárquico e no futuro imediato em termos de transportes urbanos foi, precisamente, o de posicionar a empresa municipal TUB como uma alternativa credível, eficiente, económica, confortável, de resposta às necessidades de mobilidade das pessoas no concelho e, obviamente de forma mais particular, no centro da cidade.

Associado a esse trabalho há o desafio de tornar Braga mais sustentável?
Claramente. Queremos que Braga seja mais sustentável, mais amiga do ambiente. Queremos retirar da cidade uma boa parte dos veículos automóveis que são utilizados a título pessoal, por uma percentagem esmagadora daqueles que ocorrem ao centro da cidade, com as consequências que isso tem, não só sob o ponto de vista ambiental, mas também ao nível do ordenamento de trânsito, de gestão de estacionamento, de todas essas dimensões. Os dados apontam para 66% das pessoas utilizam viaturas próprias, o que é um número avassalador e, portanto, para podermos criar essa alternativa, temos que criar condições para que outros meios possam ser utilizados, nomeadamente e, de forma muito especial, o transporte público.

Que papel é que podem desempenhar os transportes públicos nesse desafio?
Os transportes públicos têm um papel crucial e o que nós temos que garantir a todos os nossos potenciais utilizadores é que os TUB cumprem com aquilo que são as suas necessidades. Esse esforço externo foi bastante concretizado, por diversas vias ao longo destes três anos. Não só em termos da forma como os TUB se têm relacionado com a população, demonstrando no dia à dia que se preocupem em criar condições para poderem ser essa opção, mas também em termos de serviço, qualificando o serviço, ou seja, em termos de frequência de linha, e até de tarifários mais reduzidos para determinadas franjas da população. São muitas as iniciativas que dão corpo a esse objectivo.

Nesse prisma, podemos aferir que o serviço está mais próximo da comunidade?
Há um dado que é muitas vezes apresentado pela administração dos TUB, que é praticamente 95 ou 96% da população de Braga tem uma paragem de autocarro a menos de 300 metros de distância da sua casa, o que também dá uma imagem daquilo que é a cobertura em toda a sua extensão da rede para os transportes públicos. Isto é algo particularmente sensível num concelho com uma área tão grande como Braga, nomeadamente nas freguesias periféricas. Dessa forma, essa proximidade existe e o reforço tem incidido na reformulação das linhas e com a cadência da frequência dessas mesmas linhas. Hoje temos novas ligações que foram fundamentais, como é o caso da Ponte Pedrinha até ao centro ou da Universidade do Minho até ao Nova Arcada, todas elas com uma frequência bastante reduzida, entre 15 a 20 minutos em alguns casos. A própria ligação ao Hospital, à Estação dos caminhos de ferro, à Central de Camionagem, a ligação nocturna à Universidade do Minho e à residência de estudantes sete dias por semana são situações que tornam o transporte urbano como uma alternativa a considerar.

E como é que isso foi conseguido?
Esse esforço requereu uma grande organização interna, algo que não é visível para fora, mas que teve inúmeras acções durante este mandato e com resultados muito palpáveis. E em termos de números… Nestes três anos aumentamos em mais de meio milhão o número de passageiros, temos cerca de dez milhões de passageiros transportados anualmente, temos obviamente um aumento das receitas sem estarmos a agravar os preços, algo que também é muito considerável, e isso, num cenário nacional onde se verifica uma retracção na utilização dos transportes públicos, é um fenómeno de contra- ciclo que nos deixa particularmente satisfeitos e obviamente queremos continuar a potenciar no futuro.

Perante esse crescimento, a frota existente na actualidade é suficiente?
Esse é um dos grandes esforços mais na vertente interna que temos que encarar. A frota dos TUB, para lá de ser insuficiente em quantidade, nomeadamente em termos de idade era uma frota bastante envelhecida. Há um ano atrás chegamos a ser bastante criticados por estar a comprar autocarros com quinze e dezassete anos de vida e o que recordo é que depois de termos comprado esses autocarros podemos abdicar de viaturas que tinham quase trinta anos de vida. Obviamente em termos de idade média da frota houve uma redução significativa, houve uma uniformização de viaturas para tornar também a sua manutenção mais eficiente e mais económica e isso é algo que é fundamental, porque uma das grandes dificuldades que uma empresa de transportes se confronta é o ter de ter uma parte da sua frota inactiva em manutenção ou com necessidade de reparação frequente. Essa é uma da área que não foi visível para o exterior, mas que teve um impacto muito significativo.
Do ponto de vista interno houve uma reorganização, quer em termos do sistema de manutenção, com a criação de mecanismos de prevenção, com a uniformização dos procedimentos de práticas, com a reorganização logística dentro da própria empresa, com uma maior eficiência no controlo do armazém. Enfim, são procedimentos que não existiam no âmbito dos Transportes Urbanos e que, não só os tornam mais eficientes e obviamente capazes de prestar um melhor serviço à população, mas também desagravam os custos que a empresa tinha que suportar. Este trabalho permite que a empresa se coloque com outra ambição em matérias como a certificação de qualidade, investigação e até em componentes científicas.

Ricardo Rio pretende que Braga tenha um papel importante na Euro-Região. Que acção é que pode desempenhar os TUB nesse desiderato e torna-se imperioso implementar novos serviços, como por exemplo, linhas de 24 horas diárias?
A política de transportes está a sofrer uma grande transformação ao nível internacional. Não só pela oferta de outras soluções em termos de mobilidade, mas mesmo em termos de padrões. Pode parecer para alguns um pouco estranho, mas por exemplo, em termos de oferta de serviço a uma determinada freguesia, mais do que disponibilizar continuamente um serviço de linha que passe com regularidade naquele local, hoje em dia pode ser mais económico e mais eficiente os Transportes Urbanos disponibilizarem um serviço à chamada. Estas novas soluções que o próprio Governo está a estimular no âmbito dos transportes porta-à-porta e de outros programas, obviamente que garantem a resposta dos transportes a toda a população, mas num sistema diferente.
Numa óptica de Euro-Região, julgo que os Transportes Urbanos de Braga têm vindo a conquistar um papel de grande credibilidade, pelo facto de congregarem um conhecimento muito específico do ponto de vista de gestão de sistemas de transportes. Braga tem tido muita colaboração com outros municípios vizinhos, no âmbito da instalação das autoridades de transportes, já o fizemos até ao nível internacional, recordando o projecto que foi feito de criação de sistemas de transportes de Água Grande, que foi uma forma de exportar este conhecimento e de potenciar oportunidades de negócio para várias empresas da região. Estamos a ter solicitações de outros países e de outras cidades internacionais, para estreitar esses laços e, naturalmente, vamos acompanhando tudo isso com modernização e conhecimento.

Há também parcerias com instituições de ensino…
Há que realçar as parcerias que têm sido estabelecidas com as instituições de ensino superior, os casos da Universidade do Minho, da Universidade Católica e do IPCA, que são parceiros em termos de investigação de diversos domínios da gestão dos transportes urbanos, quer do ponto de vista de novas soluções tecnológicas que possam vir a ser adoptadas.

Há também a preocupação de Braga ser uma cidade acessível para todos…
No âmbito do plano estratégico de desenvolvimento urbano, os fundos comunitários consagraram a principal fatia em termos financeiros dos investimentos para a área da mobilidade. Braga recebeu cerca de 12 milhões de euros, que parte deles poderão ficar afectos a esta área. Não estamos a falar de criação de estradas ou de requalificá-las, estamos a falar precisamente de criar condições para uma mobilidade mais efectiva. Isso pressupõe intervenções na óptica da criação de novas ciclovias, de criação de condições de acessibilidade para os peões, mas também o estímulo aos transportes públicos, com a criação de faixas BUS, de sistemas preferenciais para garantir a circulação dos transportes urbanos, de semaforização inteligente, são políticas que vão ser implementadas no nosso concelho.

Esta é uma das grandes paixões deste executivo?
Tenho tido uma relação de grande proximidade e de grande presença com os tranportes urbanos por vários motivos. Esta é uma área crucial para a qualidade de vida das populações. A extensão dos autocarros até à entrada do hospital parece uma decisão simples, mas proporcionou enormes mais-valias. Estamos a falar de umas centenas de metros, mas que do ponto de vista do bem-estar dos seus utilizadores foi uma enorme satisfação. Às vezes medidas sem grandes custos podem mudar a vida das populações. Como esperamos que tenha o mesmo grau de satisfação, a entrada dos transportes urbanos na Universidade. Essa é uma medida que está garantida. Ainda não é numa lógica de atravessamento, que é um objectivo que temos a prazo e que estamos a dialogar também com o reitor e com a equipa reitoral. Todavia, vamos também enquadrar essa medida num rearranjo do campus universitário, por força da sua expansão, do aparecimento de novos edifícios. A curto prazo temos a primeira medida, que vai ser acompanhada da criação de um novo cais, com muita mais segurança do que aquela que hoje existe na envolvente da universidade.

Com essa medida esperam aumentar também o número de passageiros?
Julgo que a população universitária é daquela que mais tem ocorrido à utilização dos transportes públicos, porque quer em termos de frequência das linhas, quer em termos de utilização de horários nocturnos há uma oferta qualificada que suscita essa adesão. Todavia, mesmo por outras franjas da população nós temos vindo a desenvolver iniciativas que tornam os transportes públicos mais atractivos. Recordo o passe dos reformados, quando este mandato se iniciou essas pessoas tinham várias restrições ao longo do dia, o que levava a que os cidadãos reformados fossem quase uns cidadãos de segunda categoria dos transportes. O que temos feito ao longo deste mandato e que, paulatinamente, vai culminar em 2017, é remover a totalidade das barreiras, de forma a utilizarem livremente o passe.

É com este tipo de medidas que se pretende atingir os 20 milhões de passageiros em 2025?
Esse é um objectivo ambicioso, mas com todas as iniciativas que estão a ser tomadas, no âmbito daquilo que se chama o paradigma da mobilidade nas cidades mais desenvolvidas, esperamos conseguir concretizar.
Há outras questões que terão que ser transformadas em estruturais e que hoje são realidades ocasionais. Um exemplo disso mesmo, em todos os grandes eventos da cidade – Noite Branca, Semana Santa, S. João, Braga Romana – temos criado os parques periféricos e que têm sido um enorme sucesso. Ainda na última Noite Branca os parques estavam lotados com os autocarros cheios de gente, por um custo simbólico. Essa é uma situação que estamos a estudar numa base estrutural e que queremos estimular inclusivamente desde tenra idade.

O novo PEB que foi apresentado tem como base a atracção de grandes eventos para a cidade. Os TUB vão ter um papel activo na aproximação dos cidadãos a essa infra-estrutura?
É algo que vamos ajustar em função das dinâmicas que forem criadas, mas obviamente que, quando falamos de um equipamento que tenha uma utilização regular, com uma multiplicidade de eventos, as pessoas não vão andar em viaturas próprias e vão ter à sua disposição de um serviço eficiente e de qualidade dos transportes públicos.

Perante este cenário traçado, fica a clara impressão que o parque em Maximinos está obsoleto. Concorda?
Sim os TUB sofreram um pouco daquilo que foi a dinâmica em tantas outras circunstâncias no concelho. De certa forma, transformaram-se numa espécie de ilha cercada por todos os lados e com uma dificuldade de expansão e reorganização do espaço consonante com aquilo que são as suas necessidades. Necessitava-se de um novo terreno de expansão para o Parque de Material e Oficina e surgiu uma oportunidade para juntar o útil para a cidade e o agradável para os TUB, que é a possibilidade de ocupar o terreno do bairro da Ponte dos Falcões. Este é um bairro que exigia uma esforço de regeneração e, em articulação com várias entidades, encontrou- se uma solução para realojar aquelas famílias, fazer implodir aquele bairro e ampliar o espaço dos TUB.”

in Suplemento “ESTAMOS PRESENTES”, 19/09/2016 #TUB #mobilidade #sustentável