“Entrevista: Baptista da Costa: TUB continuam à procura de novos clientes”

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“O administrador dos Transportes Urbanos de Braga (TUB) assegura que o aumento de passageiros registado em 2014 está a confirmar-se este ano. Baptista da Costa, em entrevista ao Correio do Minho/ Rádio Antena Minho, declara que a postura da empresa é procurar os clientes onde eles estão.

Os TUB esperam novos autocarros e a abertura de financiamento comunitário para o ‘Bus Rapid Transit’.”

Link para a entrevista completa: goo.gl/nxjJU4

“P – É administrador dos Transportes Urbanos de Braga (TUB) desde finais de 2013. A anterior gestão dizia que os TUB são uma ferramenta importante para os trabalhadores do concelho. No entanto, nos últimos dez anos perderam utentes. A subida registada em 2014 está a ser consolidada em 2015?

R – Os TUB são uma ferramenta importante para a qualidade de vida das pessoas e para a mobilidade. É um instrumento importante de coesão territorial e social. Os transportes públicos desempenham um papel fundamental nas cidades, são como as veias no corpo humano. Nos últimos dez anos, os TUB tiveram um declínio de clientes.

P – Cerca de 200 mil passageiros por
ano, um número significativo.

R – Muito significativo. Houve um ano com ligeiro acréscimo, com a abertura do novo Hospital, mas o declínio foi constante. O ano passado, começámos a inverter, fruto de alguma oferta, melhorias pontuais, promoção, mais cuidados na imagem da empresa e dos veículos, também com a mobilização dos trabalhadores.

P – Redesenharam alguns circuitos urbanos?

R – É ver onde as pessoas andam e leválas onde elas querem ir. Ter o foco no cliente e dar resposta com os meios que temos.

P – O crescimento dos TUB em 2014 surpreendeu-o?

R – O empenho da Câmara Municipal de Braga nas questões ligadas à mobilidade é determinante e deu aos TUB uma nova missão: dar resposta às necessidades das pessoas.

P – Essa recuperação é para manter
em 2015?

R – Não só manter, mas até incrementar. Os objectivos são claros: nós transportamos 10 milhões de pessoas, daqui a dez anos teremos de transportar 20 milhões, daqui a cinco temos de transportar 15 milhões. Neste momento, com os meios que temos, continuamos a subir de uma forma significativa. Já há dados que indicam que vamos chegar ao fim do ano com um número interessante.

P – Que motivos dão às pessoas para que haja vontade de utilizar os TUB?

R – Pequenas coisas: falar bem com a cidade e com os decisores, promover o transporte público, alargar em cinco horas o horário de atendimento na estação ferroviária, ter autocarros mais limpos, criar uma relação da cidade com o seu sistema de transportes.

P – As pessoas ligam muito ao tempo de espera pelos autocarros.

R – O tempo de espera é muito importante mas também o é dar frequência ao transporte público. Numa zona urbana, com uma frequência de meia hora, não se captam clientes. Há um ano e meio atrás não havia uma única linha com frequência de 15 minutos. Melhor, havia a linha entre a estação ferroviária e a Universidade do Minho, mas com algumas deficiências: não pára na Rotunda Santos da Cunha, não pára no cruzamento com a Avenida da Liberdade, não pára na rotunda das piscinas. Digamos que é um ‘shuttle’ para quem vai da estação para a universidade. Esse ‘shutlle’ mantém-se estável. Não é por aí que estamos a conquistar clientes. Aumentámos a frequência para 15 minutos em duas linhas: Camélias- Hospital e Estação Ferroviária- Estação Rodoviária e Hospital. O aumento de frequência levou a um aumento muito interessante de clientes.

P – A continuidade destas medidas está dependente das novas viaturas?

R – Claro que há melhorias contínuas. Quando cheguei aos TUB mandei estudar a sinilistralidade dos últimos quatro anos. Houve mil acidentes. Logo em 2014, a sinistralidade reduziu 35%. Se tiver menos acidentes, aumento a disponibilidade da frota. A resposta dos nossos colaboradores tem sido absolutamente fantástica.”

P – Os TUB mantêm uma frota que a própria administração considera envelhecida e insuficiente. Este ano já haverá um aumento da frota?

R – Há um trabalho que é invisível, a nível das oficinas, para aumentar a capacidade operacional dos equipamentos, diminuir o tempo médio de reparação e aumentar o tempo médio entre duas avarias. Isso permitiu-nos libertar mais alguns veículos que fomos alocando aos pontos mais críticos.

P – Mas não permitiu o crescimento necessário para a duplicação do número de passageiros a prazo…

R – Para isso é necessário adquirir viaturas. O parque de viaturas é completamente envelhecido: a idade média é de 17 anos. Doze anos é a média de uma frota madura.

P – Vamos ter novos autocarros em 2015?

R – O plano de actividades tem 1,5 milhões de euros alocados para a compra de viaturas em cada um dos anos. Nos próximos quatro anos, para manter a empresa em funcionamento está previsto um orçamento de seis milhões de euros.

P – Dez autocarros novos em 2015?

R – A estratégia não será exactamente essa. Vamos adquirir novas viaturas da classe ‘euro 5’ para transportar 80 passageiros, de qualidade acima do que hoje a cidade de Braga tem. É um primeiro passo para dar resposta à urgência do momento. É imperativa a aquisição de novas viaturas.

P – Braga é uma cidade desenhada para responder à evolução dos TUB, redesenhando circuitos e procurando novos utentes?

R – Braga tem mais de 100 mil pessoas na sua zona mais densa. É uma oportunidade para os transportes públicos. Braga tem uma dimensão gerível, mas deu sempre prioridade ao transporte individual.

P – À semelhança do que acontece noutras cidades?

R – São processos históricos. Houve uma altura em que as pessoas preferiam isso. A prioridade dada ao automóvel levou a que, ainda hoje, haja em Braga uma avenida fantástica com o nome de Rodovia. O nome diz tudo. Os serviços foram para a cidade sul, abaixo da Rodovia. Para ir lá é preciso atravessar as passagens aéreas que as pessoas não gostam. É preciso repor algumas ligações, dando prioridade aos peões. Hoje, mais importante que os transportes colectivos, é criar condições para que as pessoas se desloquem a pé e de bicicleta e só depois em transporte público. A cidade deve criar bons percursos pedonais, boas vias cicláveis e bons transportes públicos para reduzir os custos de gestão da cidade, as despesas das famílias e melhorar a qualidade de vida.

P – A melhoria do serviço dos TUB passa pela eliminação dessas barreiras que impedem a mobilidade ciclável e dos peões?

R – Há um grande envolvimento da câmara nesse sentido. Há pontos críticos que irão ser superados muito em breve, como o atravessamento da Avenida Júlio Fragata, com a Rua D. Pedro V a ficar ligada à Rua Nova de Santa Cruz e daí à Universidade do Minho. Reparem que basta essa ligação para que na zona histórica da cidade passe a ter um grande centro comercial como é o ‘Braga Parque’.

P – Na Rua dos Biscainhos estão previstas também alterações?

R – Uma alteração muito interessante: a duplicação do sentido de circulação dos transportes urbanos. Quem estiver no Pópulo e quiser ir para a estação de caminhos de ferro vai poder, a curto prazo, fazer o percurso sem os desvios que o autocarro actualmente faz, muito penoso para os passageiros.

P – Há a percepção de que os percursos dos TUB não são lineares. Isso ajudou a afastar as pessoas do transporte público?

R – Essa é uma questão incontornável. Em todo o mundo está estudado que os transportes públicos devem seguir tão em linha recta quanto possível. É um esforço que estamos a fazer para conseguir encontrar na cidade os percursos que permitam dar essa percepção às pessoas, assim como os percursos de ida e regresso serem o mais paralelos possíveis.

P – Isso não pode contrariar um pouco a pedonalização do centro histórico?

R – Possivelmente. As pessoas gostam das zonas pedonais. Eu também gosto. O problema é que não há experiência em Braga de compatibilizar o transporte colectivo com as zonas pedonais, contrariamente ao que se passa em muitas cidades por esse mundo fora. Essa compatibilização depende de decisões políticas mas também da habituação das pessoas a conviver com transportes públicos em zonas pedonais. Nós temos feito experiências interessantes com o circuito turístico que passa em pleno centro, pela ‘Brasileira’ e pelo posto de Turismo. A cidade tem reagido de uma forma simpática. As zonas pedonais e o transporte colectivo são compatíveis.

P – As opções tomadas no passado no sentido de afastar o transporte colectivo do centro da cidade de Braga foram erradas?

R – Quando em Braga se fez esse esforço e esse investimento, muitas cidades europeias já o iam abandonando.

P – No caso da Rodovia, a ideia é transformá-la numa avenida mais ‘sociável’?

R – Temos a sorte de termos uma cidade muito plana no percurso desde a a estação de caminhos de ferro até ao Fojo, sempre junto ao rio Este. É uma avenida com sete quilómetros, muito interessante, onde é possível acomodar os vários modos de transporte.

P – Incluindo o ciclável, que é uma área
onde os TUB também querem entrar?

R – Há um plano para criar mais de 70 quilómetros de ciclovias. A cidade plana permite que haja muitas pessoas a utilizar a bicicleta. A imagem que temos de Copenhaga é a de uma cidade onde se anda muito de bicicleta. Em Copenhaga neva três meses por ano!

P – Há o mito da chuva de Braga…

R – Se formos a S. Sebastian, no País Basco, há mais de cinco mil utilizadores regulares de bicicleta por dia e chove mais do que em Braga.

P – A questão então é criar canais de circulação para os autocarros, para as bicicletas e para os automóveis?

R – Quais são os obstáculos que temos? Por vezes, começamos a pensar que é preciso criar grandes infra-estruturas, mas há muitas coisas que se resolvem com uma lata de tinta e um pincel. Nas avenidas largas, pode-se criar um espaço em que o ciclista possa circular e ter a percepção da segurança.

P – Mas é preciso integrar o uso da bicicleta no sistema de transporte público.

R – A ignição destes serviços nas cidades tem variado muito.

P – Quando é que teremos os TUB a oferecer aluguer de bicicletas?

R – Não sei se serão os TUB. Faremos esse serviço se a cidade assim o quiser e se não houver outro operador para ocupar esse espaço. Não estamos em nenhuma guerra contra o automóvel, queremos é melhorar melhorar a vida das pessoas, diminuir a sinistralidade e o ruído.

P – Na área urbana de Braga há ainda zonas com deficiente cobertura dos TUB: Lamaçães, Ponte Pedrinha, Montélios…Quando é que os TUB podem começar a responder a essas carências?

R – Temos essas zonas todas muito bem identificadas. Na Ponte Pedrinha sabemos as pessoas e o negócio que lá temos. Ali moram 2 200 pessoas e saem muitos carros da fábrica Bosch. Estamos ansiosos por vender aí bilhetes. Não demorará muitos meses.

P – Até ao final do ano?

R – Seguramente. É crucial. Estamos a falar de muita gente a precisar de um serviço de transporte público aceitável.

P – Lamaçães e Montélios?

R – Em Montélios, este ano também. O vale de Lamaçães precisa ainda de algum estudo complementar.

P – Os TUB têm criado serviços pontuais em momentos com o Natal ou a ‘Noite Branca’. Com resultados positivos?

R – Decidimos participar em todos os eventos culturais, desportivos e centíficos da cidade de Braga. Queremos estar envolvidos no dia-a-dia Com a Noite Branca criámos interfaces que já começam a ter resultados.

P – Falou-se no passado da possibilidade de os TUB entrarem em concelhos vizinhos como Vila Verde. Que desenvolvimentos antevê neste âmbito?

R – Hoje, o enquadramento legal diznos que somos concessionários dos transportes públicos no concelho de Braga, mas as pessoas que utilizam a cidade de Braga não querem saber disso, as pessoas que moram em Prado e querem vir a Braga têm de ter um autocarro que as vá buscar. Com a legislação que está para sair e a orientação dos autarcas, seguramente serão encontradas integrações progressivas dos diferentes operadores no sentido a dar resposta às solicitações das pessoas.

P – Quer adiantar algumas ideias do Plano Integrado de Mobilidade Sustentável que deve estar pronto até Outubro?

R – É um projecto que começámos há muito tempo. Já há muito trabalho feito. Houve alguma coragem e decisões críticas neste percurso. Em primeiro lugar, a decisão muito difícil do presidente da câmara de dizer à cidade que não ia instalar um ‘light trail’. Havia uma saudade muito forte dos eléctricos, mas a tecnologia evoluiu e hoje os sistemas de ‘light trail’ transportam 15 mil pessoas por hora. Braga não tem possibilidade de amortizar o investimento de uma estrutura dessas. Estamos a falar de custos de 21 milhões de euros por quilómetro.

P – Caminhou-se para a solução BRT
(Bus Rapid Transit).

R – Faremos um BRT, um corredor de autocarro sofisticado que seja estruturante na cidade, aquilo a que nós chamamos Anel da Mobilidade?

P – Que será implementado nos próximos anos.

R – O tempo de planeamento pode demorar três anos e a sua execução pode ser relativamente rápida. Defendo uma intervenção mais lenta. Durante os períodos de obra provocam-se muitos impactos negativos na economia da cidade. A calendarização é importante para que não se mate a cidade. O projecto BRT está balizado para dez anos, com todo o sistema a funcionar. Os pontos que terão de ser bem desenhados são os interfaces. Para oferecermos um bom sistema de transporte de passageiros, temos de oferecer a quem chega à cidade condições de aparcamento e comércio de conveniência.

P – Está a falar de uma cidade nova
com este Anel da Mobilidade?

R – Vai mostrar outra cidade,vai valorizar as pré-existências patrimoniais. Quando viajamos de carro através desta’autoestrada’ à volta é uma coisa, passear a pé ou em transporte público pelo centro, a cidade é outra, mais rica.

P – O Anel da Mobilidade obriga à construção de novas vias ou vai aproveitar aquilo que já existe?

R – Aproveitar o que existe e fazer inserção urbana. Esta é a parte mais complexa. É preciso desenhar os passeios, as vias ciciáveis, a via para o ‘bus’.

P – Pode aproveitar a experiência que teve no Metro do Porto, projecto que obrgou a muito trabalho de inserção na malha urbana?

R – Estes sistemas são uma boa oportunidade para regenerar as cidades. A inserção urbana cria novas oportunidades. Onde há uma paragem de transportes públicos não há uma tabacaria que não faça negócio. Até o talho vende mais bifes.

P – O investimento mais pesado do BRT será na construção dos interfaces?

R – Digamos que a inserção poderá ser um pouco mais dispendiosa. Um bocadinho mais de desenho na cidade de Braga não ficaria mal. Esta parte do desenho é a mais complicada porque tem impactos até nas emoções da cidade.

P – As pessoas têm a expectativa de saber quando terão os novos autocarros BRT a circular…

R – O presidente da câmara de Braga apontou claramente para 2025. Esse é o horizonte para termos todo o sistema a funcionar.

P – Para isso é preciso dinheiro. Será preciso recorrer aos fundos comunitários?

R – Os programas comunitários neste novo quadro estão completamente virados para soluções inteligentes, inclusivas e sustentável. O BRT responde a estas três exigências.

P – Está já a ser feita essa candidatura?

R – Temos tudo pronto. Só estamos à espera que abram as chamadas para os programas.

P – Cento e vinte milhões de euros de investimento total?

R – O ‘benchmarketing’ diz-nos que qualquer inserção urbana de BRT custa 6 ou 7 milhões de euros por quilómetro. Temos de ter um sistema muito fiável ao longo do tempo para dar segurança às pessoas.

P – O sistema de bilhética dos TUB vai ser alterado?

R – A validação dos bilhetes é feita dentro dos autocarros pelo motorista. Essa validação tem de ser feita antes, porque os autocarros não são para estar parados a vender bilhetes, são para levar as pessoas no tempo certo.

P – Isso passa por incentivar o uso do passe?

R – E ter outras canais de distribuição. Hoje temos sete pontos de venda na cidade e alargámos o sistema de pagamento por multibanco. Vamos incrementar muito estes canais de distribuição. Em Braga, para se comprar um título de transporte ainda é preciso andar muito e estar muito tempo numa fila. A rede de venda vai ser fortemente disseminada, multiplicada por dez ainda este ano.
P – Foi afastada uma certa postura de estar à espera que os clientes apareçam? R – Estávamos a perder clientes porque não estávamos a fazer por eles. A empresa aderiu com entusiasmo a esta nova visão. Há uma mudança cultural interna importante: privilegiar o qualidade e trabalhar em equipa, orientados para quem está na paragem à espera do autocarro.

P – Está pensada uma alteração de circuitos de autocarros para os próximos tempos?

R – O concelho está razoavelmente bem servido de transportes públicos, a cidade é que não. Viu-se que quando prestámos mais serviços na cidade os clientes estavam lá. A alteração dos circuitos já está a acontecer.

P – Para as freguesias rurais há alguma perspectiva de redução de carreiras?

R – Um ponto forte dos TUB é a coesão territorial. Os TUB servem todas as freguesias do concelho. A dispersão tem custos e vantagens. Este é um ponto que a sociedade e os decisores políticos estão dispostos a pagar.”

PERFIL
“JOSÉ MANUEL BAPTISTA DA COSTA
É doutorado em Gestão de Empresas pela Universidade de Sevilha e licenciado em Engenheiro pela Universidade do Porto. Foi administrador do Porto de Leixões e director da empresa Metro do Porto. Coordenou obras públicas do município do Porto, tendo trabalho em acessibilidades do Euro 2004, arruamentos e túneis, conjuntos habitacionais, museus, pavilhões gimnodesportivos, infraestruturas e integração paisagística. É professor universitário e, desde finais de 2013, administrador executivo da empresa municipal Transportes Urbanos de Braga.”

in Correio do Minho, 16/05/2015